terça-feira, 17 de abril de 2012
Saudades do meu tempo.
Elas vinham de dentro, de lugares que nem sabia que existiam. Apareciam.
E eu olhava e aceitava o convite para levar minha cabeça para passear.
Minha "cuca"era a minha televisão, internet, celular.
Ai que falta me faz o tempo de sentir.
Os odores que conhecia e ficavam registrados. Eles, às vezes, aparecem quando cheiro algo similar.
Assistia a filmes e conhecia emoções pela primeira vez.
As músicas eram apresentadas a mim sem cerimônia. Me arrebatavam. Era um tempo em que as decorava.
Tempo, volta! Vem me fazer companhia. Traz o sossego de volta. Me conforta. Me deixa te sentir de novo. Me faça lembrar de você.
Me leve a pensar que você existe e que um dia eu possa te perder.
MInha voz, meu corpo.
Um versão desse texto foi publicada há algum tempo na Revista Vida Simples
Nossa experiência cultural é tão marcada pela escrita e pelo visual que esquecemos muitas vezes que somos seres sonoros e, sobretudo, que somos orais. Ouvimos e somos ouvidos fazendo parte de uma paisagem sonora. Mais além, falamos e esse é o fato político fundamental.
Do esquecimento da voz resulta a incapacidade política de uns e a violência discursiva de outros. Voz é justamente o universo político construído pela partilha da coisa falada. Não é a voz que está em nós, somos nós que estamos nela. E é por meio dela que, em primeiro lugar, fundamos a democracia.
A partilha da voz não é abstrata. É a partilha de um corpo que a todos pertence e, por isso mesmo não pertence a ninguém. Da voz, o que é dito, se torna domínio público. O que eu digo se estende para além de mim, é meu corpo tornado corpo do mundo. A voz do povo é a voz de Deus, equivale a dizer que o dizer profano se torna sagrado, está para além de nosso domínio pessoal, não tem mais dono. Qualquer um terá direito a seu uso. Por isso, em nossa cultura impera a parcimônia em dizer “verdades”, impera o silêncio quando se exigiriam posicionamentos.
Devido à desatenção que caracteriza nosso modo de ser banalizamos o fato importantíssimo da vida que é a nossa capacidade de falar uns aos outros, uns com os outros. Esquecemos por incrível que pareça que para falar precisamos da voz. Deixamos de lado sua materialidade para lembrar dela apenas quando a voz de uma cantora ou cantor nos cativa ou quando alguém nos fala em tom desagradável. Sentimos que a voz é veículo da linguagem e que está sempre carregada de significado como um corpo que, prostrado ou ativo está triste ou alegre.
A voz é corpo. Mas quem percebe isso? Quando falamos ou ouvimos a voz de alguém é como se o tocássemos ou fossemos tocados por ele. A voz é corpo e, por isso, mais que audível, ela é tátil. Por isso, a sensação de bom ou mau afeto, de amor ou violência que vem do conteúdo e da forma com que nos comunicamos uns com os outros. Isso é o que significa performance: um movimento, um tempo, que implica um efeito.
Seres falantes
A voz é uma dimensão da vida corporal, da vida sensível, da vida dos sons, não deve, portanto, ser vista como uma abstração imaterial e desconexa dos atos e gestos mais simples de nosso cotidiano. Mas pensar que ela é material e imaterial, parece ser o modo mais coerente de captar o seu conceito. Voz é corpo-espírito, é natureza-cultura.
Aristóteles (384-322 a.C) disse que a voz mostrava o que estava escrito na alma, assim como a escrita era signo da voz. A voz mesma não era signo de coisa alguma, antes um lugar que se representava a si mesmo. O fato por onde começava a comunicação, a mera indicação e a significação das coisas. Mas a voz era um meio, não um fim. Como tal, ela significa o trânsito por meio do qual se chega ao outro. Uma espécie de ponte que se constrói ao andar sobre ela.
A dimensão de falante é constitutiva do ser humano. A capacidade de conhecer que fundará mais tarde a ciência, a capacidade de relacionar-se que funda a ética e a política, são efeitos e potências da voz como articulador de toda a existência humana. A voz está na raiz da relação entre corpos individuais e instituições, desejos e leis, saberes pessoais e coletivos. A voz é a nossa articulação com o mundo.
Quintiliano, pensador antigo famoso por sua obra sobre retórica, via a voz era expressão dos afetos, como parte da ação. Nada passiva, a voz era parte da capacidade de agir de cada um, mas também a potencialidade de agir sobre um outro, de causar afetos. Voz era aquilo que constitui seu caráter performativo, ou seja, que provoca no outro uma reação, seja ela de mudança, seja de permanência. Se lembrarmos da poesia, isto se torna ainda mais claro já que ela foi a primeira forma da consciência da voz humana e que surgiu da potencialidade do afeto e da emoção que se traduziam no corpo da voz.
A poesia tem uma essência oral antes de ser coisa escrita, ela foi criada para ser ouvida. A escrita veio bem depois. Os antigos achavam que a voz tinha plena relação com a poesia não apenas porque a poesia precisava da voz para se expressar, mas porque ambas eram misteriosas. Santo Agostinho, na Idade Média, não deixou de expressar isso quando pensou que a voz era a própria vontade de saber. E para ele esta vontade de saber se traduzia como amor. A voz de uma palavra desconhecida não causava pavor ou rejeição, mas remetia ao que se podia conhecer. A voz era parte da filosofia, estava no cerne do modo como alguém pode conhecer.
Noutra linha, Hegel (1770-1871) assim como Heidegger (1889-1976) relacionou a capacidade de falar própria ao ser humano com sua consciência sobre a morte. Morte que não era apenas o cessar de viver dos corpos vivos, mas um saber sobre o tempo e a finitude da vida que mudava a relação com a vida enquanto podia ser vivida. A condição humana diferente dos outros animais vivos era a sua separação da natureza por meio da linguagem. Sendo que a voz e a morte eram fatos da linguagem. A primeira levava à linguagem e a linguagem levava a um saber sobre a morte. Tratava-se de instâncias misteriosas para o ser humano, que estavam ligadas entre si por meio da linguagem.
Violência e Voz
Podemos cantar, chorar, falar, dialogar, discursar, gritar ou nada mais que tagarelar. Mesmo quando falamos sem sentido, alguém pode, ainda que não queira, nos ouvir. Até o louco diz o que pensa, embora nem todos possam entender ou tenham paciência para escutar a voz sem política do louco. Ela parece sem política porque parece sem sentido. Acontece que, mesmo com garantias de sanidade, qualquer um que não tenha nada a dizer acaba sempre se expressando por meio de sua voz. E isto pode ser grave. Por isso, é bom pensar antes de falar porque a voz vai além de nós e depois que foi, não tem volta. Não é fácil apagar o que se diz se o ouvinte está atento, ou seja, se ele foi tocado. Assim como não é possível rebobinar a vida e voltar atrás no gesto de agressão que se emite por meio de palavras. A voz implica um corpo e o corpo implica ação. Daí que falar seja fazer e o feito possa ser tanto poder quanto violência.
Prestar atenção no que se diz é tão importante quando no que se ouve. Nossa sociedade tão tagarela quanto auditivamente desatenta nos ajuda a esquecer que somos seres falantes. Ou seja, que produzimos efeitos sobre o outro pelo simples fato de falarmos. Talvez a memória de que nosso amor e nosso ódio trafegam com as palavras que lançamos ao vento por aí possa melhorar o rumo de nossas vidas.
Márcia Tiburi.
domingo, 3 de abril de 2011
Arte.
terça-feira, 22 de março de 2011
Sobre como da morte brota a vida
Sou antropófago. Devoro livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros.
Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.
É o caso do conto "O afogado mais bonito do mundo", de Gabriel Garcia Marques. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
É sobre uma vila de pescadores perdida em um nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...
Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto.
Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E naquela vila o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.
Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".
Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
De novo o silêncio profundo, até que outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?"
E elas sorriram e olharam umas para as outras.
De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"
Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.
A estória termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma...
Depois dos terremotos e tsunamis nosso mundo nunca mais será o mesmo...
Rubem Alves - Folha de SP de hoje.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Grandes e pequenos desejos.
De fato, poderia estender essa constatação aos adultos de hoje. Não que eles deixem de desejar (isso só acontece em raras depressões graves), mas há, aparentemente, uma preferência contemporânea generalizada pelos desejos pequenos. Cuidado: um desejo não é pequeno porque seu objeto seria pouco relevante.
Tomemos, por exemplo, "Maria está a fim de cerejas" e "Antônia quer o fim de todas as guerras". Será que o desejo de Antônia é grande e o de Maria pequeno? Nada disso.
Melhor nunca comparar desejos por sua suposta "nobreza" -até porque essa tal "nobreza" pode esconder motivações bem mais torpes do que uma saudável vontade de cerejas. Então, como diferenciar desejos grandes e pequenos?
Pois bem, há desejos fluidos, suscetíveis de infinitos deslizamentos, como se, de alguma forma, o objeto desejado fosse indiferente. Esses são desejos pequenos.
Por exemplo, estou a fim de uma calça nova. Entro na loja e o tamanho 39 está em falta. Olho ao redor de mim e acabo comprando duas camisas que não têm nada a ver com a calça que eu desejava.
Quero rever "Cisne Negro", mas a sessão está lotada; nenhum drama, compro ingresso para "Bruna Surfistinha" (incidentemente: me dei bem, amei o filme). Também posso querer o fim de todas as guerras e, ao ver na TV uma ação do Greenpeace, decidir que de agora em diante só me importa o destino das baleias. Nesse caso, por se revelar facilmente substituível, o fim de todas as guerras é um desejo pequeno.
Há um outro tipo de desejo, mais incômodo, que não admite a substituição. Quero circum-navegar a Terra de veleiro, quero vingar meu pai, quero produzir uma obra, construir um império, rezar em silêncio no deserto, comer cerejas a cada dia: se eles forem insubstituíveis, se sua insistência moldar nossa vida, esses desejos são grandes porque eles nos definem.
O desejo pequeno é ideal para uma sociedade que conta com o consumo para alimentar a produção e organizar as diferenças sociais. Desejos substituíveis garantem que a gente seja sempre levemente insatisfeito e levemente desejante, esvoaçando de objeto em objeto como uma abelha num campo de flores.
Quanto ao desejo grande, que já foi ideal dominante, ele é hoje raro na prática, mas (anúncio de uma mudança dos tempos?) a sedução que ele exerce está crescendo.
Como Mônica Waldvogel (no "Entre Aspas", da Globo News, na última quinta) e o crítico da Folha Inácio Araújo (na Ilustrada de domingo), reparei que a safra do Oscar deste ano é peculiar: quase todos os filmes indicados ilustram desejos grandes.
Estamos tão acostumados a desejar pequeno que desejar grande (e pagar o preço disso) nos parece ser um comportamento patológico (o cara enlouqueceu, está obcecado) ou, então, sinal de crise (os EUA devem estar muito mal se eles precisam idealizar esses heróis que desejam grande).
Penso o contrário: patológico é desejar pequeno. E, se os Estados Unidos estão gostando de heróis que sonham grande, talvez eles estejam saindo da futilidade dos anos 90: o sinal não seria de crise, mas de saída da crise.
Recentemente, vários leitores e leitoras me perguntaram por que não escrevi sobre "Cisne Negro", que (alguns notaram) é um prato cheio para um psicanalista. Pois é, amei o filme e concordo com a ideia do prato cheio, mas acontece que, no filme, o que me comoveu não foi tanto o desabrochar da loucura quanto o heroísmo do desejo de perfeição da protagonista -um desejo grande.
Falando em desejo grande, "Bruna Surfistinha", que estreou na última sexta, é outro exemplo. O filme de Marcus Baldini não é uma apologia nem uma crítica moralista da prostituição: é um filme sobre o difícil e tortuoso caminho de alguém que quis ser livre. É a história de um desejo grande.
Contardo Caligaris - Folha de São Paulo 3 de março 2011.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Fragmentos de momentos escolares.
_Você viu, fessô, o preço destes exames de Cambridge? R$300 reais!
_É, mas eles são para o resto de sua vida e contam muito para o seu currículo em língua estrangeira.
_Mas, fessô, isto é uma ladroagem!
Cena 2: Minutos mais tarde, na sala de aula. Os mesmos alunos resolvendo questões sérias da formatura.
_Pois é, gente. Então tá resolvido.
_Resolvido o quê? Pergunta ao presidente da comissão, tipo tête-à-tête.
_Ah, fessô. É que o pessoal entrou em acordo de pagar R$150,00 por mês para a formatura. Esperamos arrecadar uns 90 mil até o final do ano.
_É mesmo? E o que vocês planejam fazer com o dinheiro?
_Nós vamos fazer a festa de formatura, com a família, um mini-baile, onde famíla não entra que é pra gente ficar bebum (piscadela de olho) e um churrasco.
Cena 3: No outro dia, na mesma escola. Professor tentando enfrentar uma suposta fila para comprar seu lanche, visto que a escola não oferece nada aos professores. Mentira: há cafezinho.
Um esboço de fila que é mais lateral que horizontal.
_Ô fessô, você não precisa ficar na fila não.
_Preciso sim, uai! Por que não?
_Você é fessô.
_De jeito algum.
Após alguns empurrões e lutas corporais de cotovelo contra invasores de espaço com idades entre 13 e 14 anos, rechonchudos e bem vestidos, o fessô chega ao caixa e reclama: _mas, você não deveria aceitar o dinheiro de quem não está na fila!
_Ah, moço. Aqui num tem fila não. Num tem jeito.
Cena 4: Mesmos alunos. Mais recados da comissão de formatura.
_Vocês têm que acreditar na comissão e saber que estamos olhando os melhores preços. Por exemplo, esta agência nos garantiu que em Porto Seguro vamos ter 13 festas em 6 dias. Uma destas festas vai ser uma micareta.
_O fessô abaixa e cochicha com a aluna mais próxima: Isto está fora da mensalidade da comissão?
_Tá.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Fazer a cama.
Acho que foi em um texto sobre filosofia chinesa em que li que o segredo da felicidade estava em fazer a cama, todos os dias, com a mesma disposição.
Eu trocaria a expressão. Ser feliz é pedir muito. Mas quem sabe, seria o segredo da tranqüilidade.
Olhar para sua cama, dar um até logo, rearrumar as cobertas, recolocar os travesseiros no lugar, cobrir com uma colcha e saber que mais tarde ela será desfeita e amanhã tudo se repetirá.
Há pessoas que não gostam de fazer a cama. Mas duvido que não gostem muito quando se deitam numa cama com lençóis recém-colocados, travesseiros arranjados. É uma maneira de imprimir a nossa marca corporal no colchão.
Repetição.
A vida é uma eterna repetição. Porém, para nos salvar do tédio, ela se incubiu de ser sempre diferente. E, nesta repetição, encontramos o sentimento de segurança. E no diferente, a possibilidade do novo.
Então, boa disposição neste ano que começa para refazer tudo de novo.