sábado, 19 de dezembro de 2009

Amizade.

A mesma palavra tem significados diferentes de acordo com o texto ou o discurso em que figura. A importância disso é capital, pois significa que, para interpretar uma palavra, precisamos nos debruçar sobre o contexto do qual ela faz parte ou escutar verdadeiramente quem a profere. Do contrário, não a entendemos. O ensinamento básico de Sigmund Freud é esse e bastaria para justificar a psicanálise, se isso ainda fosse necessário.

A maioria das pessoas, no entanto, não se dispõe a escutar. Poucos nascem com essa capacidade, que pode e precisa ser desenvolvida. Escutar é um ato generoso. Implica que eu deixe momentaneamente de falar e esteja aberto para o que o outro tem a dizer.

A escuta é a característica do psicanalista e também do verdadeiro amigo – que não impõe a sua presença, não diz o que não deve ser dito e, assim, faz com que a amizade floresça. Ou seja, o amigo sabe se conter, exercita-se na ética da contenção. Por isso, ele é de paz e a sua maneira de ser pode servir de modelo para todas as outras relações: marido e mulher, pais e filhos e irmãos.

O que o filósofo e historiador grego Xenofonte escreveu 2 400 anos atrás poderia ter sido escrito hoje: "Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens. Está sempre pronto a auxiliar... Há homens, contudo, que investem toda a sua energia no cultivo de árvores, para colher frutos, e são negligentes com o amigo, o bem que mais frutifica". O amigo vê e ouve o que não somos capazes de ver nem ouvir. Assim sendo, pode fazer por nós o que não temos como fazer por nós mesmos. Como o analista, ele ilumina o caminho.

Ele sabe suspender o seu desejo para que o do outro se manifeste. O que ele mais quer é o acordo. Está menos interessado nos eventuais benefícios materiais que a amizade pode trazer do que no fortalecimento desta. Visa sobretudo ao contentamento do outro e não deve ser confundido com o cúmplice, que visa ao próprio interesse e se liga a alguém em função do que almeja alcançar.

O elo de cumplicidade tende a ser efêmero, enquanto o de amizade é para sempre. Em outras palavras, o amor dos amigos nunca é de agora, e sim para a vida inteira. Também por isso, há milênios a amizade inspira escritores, que se perguntam de que modo escolher um amigo, quais as características de um amigo verdadeiro e o que nós devemos a ele. Os escritores – os melhores, entre eles – sabem que a amizade nasce espontaneamente, mas só dará os seus melhores frutos se for cultivada.

Betty Milan- Revista Veja/23/12/09

domingo, 13 de dezembro de 2009

Esquisitices.

Enfim estava no meu novo apartamento. Espaçoso, luminoso. Caberia e sobraria os móveis que eu tinha. Branco. Prazerosamente branco. Esses tipos de apartamentos antigos difíceis de encontrar hoje em dia.

Conversei com o porteiro e ele me deu uma informação geral de como as coisas funcionavam no condomínio: as regras. E claro, me informou quem eram meus vizinhos. Um deles, uma senhora de meia idade, reservava um canto em seu apartamento para guardar livros dos outros moradores. Todos tinham um lugar reservado para seus livros em seu lar. Ele me disse que ela os identificava com nomes dos seus proprietários. Ela formava, assim, uma biblioteca informal. Todos podiam ir lá, guardar seus pertences e pegar livros para ler. Tudo era cuidadosamente anotado.

No meio da primeira noite, acordei para tomar água e ir ao banheiro. Foi então que eu notei que a luz da sala estava acesa. Mas não me lembrava de tê-la deixado ligada. Surpreso, vejo que havia um mendigo dormindo em minha sala. Ele se encurvava para se proteger do vento frio que vinha da janela aberta. Ele e seu cachorro vira-lata. Fui até ele. Vi que havia uns papéis em cima da mesa de centro. Eram seus documentos. Ele tinha um nome, Estevão Cardoso Filho. Quis acordá-lo e dizer que ali não era sua casa, não era um lugar abandonado onde ele poderia dormir. Me perguntei como ele havia entrado lá, se isso seria um hábito, se já o haviam informado que havia um novo morador lá. Essas perguntas foram respondidas apenas no dia seguinte. O porteiro me disse que ele costumava fazer isso nas casas das pessoas. Ele era, de fato, um chaveiro e por isso tinha as cópias das chaves das casas que ele já atendera. Então, a cada dia, ele podia escolher em qual casa entrar, dormir e sair antes que o dono notasse sua presença. Seu lugar era no lugar dos outros.

Ao retornar para casa, depois de esclarecer minhas dúvidas, tive outra surpresa. Havia uma jovem mulher que usava meu telefone e falava sem parar. Quando ela me viu, veio logo se desculpando e afirmando que a imobiliária não a tinha dito que já tinham alugado o apartamento. Ela falava muito rápido enquanto se movimentava de um lado para o outro, de forma frenética, andando por todos os cômodos do lugar. E eu, sem notar, a seguia. Ao chegar à área de serviço, as grandes janelas me deixavam ver duas possíveis amigas conversando. Falavam de suas vidas íntimas. Problemas com namorados. E eu ali era apenas uma testemunha da vida dos outros, sem querer sê-lo. Me via obrigado a assistir a tudo. As janelas eram grandes, devassadas para o interior dos outros apartamentos.

E eu me peguei pensando: não é que eu estava gostando daquela esquisitice toda?

sábado, 12 de dezembro de 2009

Estresse.

Hoje está fazendo um ano que descobri que meu corpo me avisaria que eu não estava lá muito bem. Na tarde daquele dia de 2008, eu senti uma fisgada no olho e um tersol se formou no lugar. Este durou 6 meses para sarar. Um dia depois deste ir embora, outro tersol apareceu, no outro olho, que está aqui comigo até hoje. Há um mês, outro apareceu, no olho direito.

Para tentar tratá-los, fui a dois oftalmologistas, tomei TRÊS tipos de antibióticos, tive reação alérgica, fui à uma médica homeopata, cansei de buscar ajuda. Quando me olho no espelho, vejo os dois pontos nos meus olhos e me irrito. Estou começando a me cansar também.

A minha paciência está se esgotando. Hoje não acredito mais em quase nada. Na verdade, duvido que alguém saiba mesmo o que está fazendo. Uns talvez tenham mais idéia do que deve ser feito do que outras pessoas, mas me parece que é apenas uma questão de tentativa e erro. Certeza mesmo, ninguém tem, mesmo depois de anos e anos de experiência. O engraçado é fazerem uma cara e dizerem com uma segurança que sabem do que falam.

Como ainda trago no hábito de pensar que devemos aprender alguma coisa na vida, seja com as coisas boas ou tristes, cá estou querendo saber o que tudo isso quer dizer. O que devo aprender com isso. Atualmente, a única coisa que sei é da minha completa incompetência em gerenciar o meu tempo. Corro de lá para cá. Minha vida se dá no tique taque do relógio, do compromisso, dos deveres. Quando paro, sinto que esqueci de fazer alguma coisa. O corpo reclama da substância da qual ficou viciado: não ter tempo para mim mesmo.

Uma boa risada, daquelas que a barriga até dói, faz tempo.

Tenho saudades de muitas coisas que foram deixadas de lado por causa da rotina. Tenho preguiça de reinventar o meu modus vivendi.

Os dois pontos salientes nos meus olhos chamam a atenção das pessoas quando elas conversam comigo. Não sei se é uma forma inconsciente de fazer as pessoas olharem para mim, ou se serve para eu mudar os meus pontos de vista, meu modo de ver as coisas. Sei que estou impaciente. E muito.



"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." Mário Quintana.

Novos tempos.

Esbarro, sem querer, em minha aluna de 15 anos. Ela tira o braço rapidamente e faz uma careta de nojo e diz: Ai, fêssor.
Eu me desculpo. Ela continua: Não doeu não, mas é que você tem um braço cabeludo. Credo!
Atordodado com o comentário, eu respondo: Desculpa, mas eu sou do tempo em que homem tinha cabelo nos braços... e que as mulheres costumavam gostar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Inteiro/Pedaço.

Ouvi dizer: A gente fica procurando a mulher inteira, a profissão inteira, a viagem inteira... completa. A questão é que a vida oferece tudo... mas aos pedaços.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

domingo, 18 de outubro de 2009

Ela.

Ele tinha chegado à nova casa, alugada. Iria começar tudo de novo. Daqui para frente seria tudo diferente. Mas como isto seria possível, se ele fora tomado de assombro ao perceber que era inquilino da família do outro? Este, dez anos mais moço, tinha o surpreendido ao aparecer depois da negociação com os proprietários da casa. O outro era filho deles. Que coincidência!

Ele era observado pelo outro de maneira indireta. Enquanto ele tentava colocar a cabeça no lugar, o outro cantava alto, brincava com o seu cachorro (ele também já tinha tido um cachorro igual ao do outro), recebia amigos, sempre alardeando sua presença. Mais precisamente, demarcando território.

Ele assistia a tudo sem muito ter o que fazer. Algo muito parecido quando viu um pássaro ser atacado por um bando de outros pássaros. O pobre nem se mexia tanto, perdido em meio a uma revoada de pássaros que lhe bicavam as costas, tiravam-lhe as penas. Ele entendia a posição do pássaro ferido. Sentia compaixão por ele. Resignava-se, assim como o pobre coitado que não tinha muito como reagir. Ele, no íntimo, via como a vida tinha lhe pregado uma surpresa ao fazê-lo morar na casa do outro: aquele de quem, um dia, tinha lhe roubado ela, por meio das razões do coração.

Ele não sentia culpa por isso. Ele já tinha inclusive tentado explicar isso ao outro. Ao conhecer ela, ele não sabia do outro. Mas compreendia os motivos deste odiá-lo e usar sua posição, no momento superior, para retornar o desprezo guardado há muito tempo e que não tinha por onde escoar.

A família do outro o tratava bem. Ele via pessoas chegarem à casa dos proprietários, quase sempre em grupos, porque no local se realizava uma reunião espírita mediúnica em alguns dias da semana. Eram religiosos, os pais do outro.

Num dia de quermesse, ele saiu para dar uma volta no quarteirão e ver as festividades. As crianças estavam animadas com a diversão. Os quase adolescentes se juntavam em bandos e ficavam a paquerar. Ele tinha inveja deles. Eram jovens. Estavam descobrindo a delícia de se encontrar enamorado.

Enquanto caminhava, ele se lembrava da última conversa que tinha tido com o outro. Ele havia escutado toda a amargura guardada e que lhe era exposta. Aceitava aquele desprezo, aquela desilusão, aquela raiva, porque já tinha sentido a mesma coisa. Isto lhe era familiar. Sabia que aquele era o tempo de escutar o outro falar.

Quando ele chegou em casa, ele viu o outro com uma criança no colo. Era filho do irmão dele, que também estava presente. Sem poder acreditar no que via, percebeu o outro com os olhos marejados indo em sua direção, depois de deixar a criança com o irmão. Abriu os braços e o abraçou. O irmão observava ele e o outro juntos, se abraçando e soluçando entre lágrimas, antes contidas. Era como ver dois soldados que lutavam em lados opostos se encontrarem e reconhecerem que tinham sido vítimas de uma mesma batalha: ela.

O irmão dizia: “Viu como ele é gente boa!”

Ele pensava: Quantas vezes ela já havia também abraçado o outro?