quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Prazer em me conhecer.

 
Sou de um país cujo nome já existia antes dele mesmo ter sido “inventado”. É que a oeste da Irlanda, no oceano Atlântico, segundo lendas antigas irlandeses, havia uma ilha de nome Brazil, originário provavelmente de um antigo clã irlandês chamado Breasail. De acordo com documentos, ela já aparecia em cartas náuticas de 1325. Seria uma ilha que ficava invisível pela neblina e que só aparecia um dia a cada sete anos. Apesar de vista, jamais poderia ser alcançada. Talvez tenha dado início a um mito do Brasil do futuro, daquele que vai pra frente… pelo menos a lenda é mais poética do que a história conhecida do pau-brasil.

Meu Estado brasileiro surgiu da busca de riquezas. Vislumbrava-se nele a chance do futuro enriquecimento que culminou na capitania São Paulo e Minas de Ouro em 1709, desmembrada depois de 11 anos em Minas Gerais. Seus índios eram do tronco linguístico macro-jê: os xacriabás, os maxacalis, os crenaques, os aranãs, os mocurins, os atu-auá-araxás e os puris. Como todos os outros do Brasil os nativos foram, aos poucos, sendo dizimados. Entre 1700 e 1850, 160 grupos de negros africanos de três regiões distintas foram trazidos para Minas Gerais: os sudaneses, os bantus e os moçambiques. Esses se misturaram com os portugueses e os brasileiros, essa estirpe de gente  viralata de longa formação histórica que começou em 1500.

Moro em Belo Horizonte, cuja história inicia-se no século XVII com a fixação do bandeirante João Leite da Silva Ortiz nas terras delimitadas entre o pé da Serra do Congonhas até a Lagoinha. Neste local, Ortiz inicia a atividade agrícola e pastoril que desenvolve a área tornando-a centro de abastecimento e produção num setor pouco explorado, já que na época o foco estava voltado para exploração do ouro. Este local, denominado "Cercado", tinha sido concedido em documento através da Carta de Sesmaria àquele bandeirante, em 19 de janeiro de 1711. Ortiz, bandeirante, natural de São Francisco, Estado de São Paulo, foi o primeiro homem civilizado a habitar e possuir o local onde hoje está BH. Mais tarde, "Cercado" transforma-se num centro de atração de outros povoados passando a ser denominado "Curral d`El Rey" por ali existir um curral onde pernoitava o gado destinado ao pagamento da taxas reais. Com a Proclamação da República, os moradores de "Curral d`El Rey"sentiram a necessidade de mudar o nome do distrito. Foram indicados: Terra Nova, Santa Cruz, Nova Floresta, Cruzeiro do Sul e Novo Horizonte, sendo este último, pelo Capitão José Carlos Vaz de Mello, o mais aceito, não sem sofrer uma importante alteração sugerida por Luiz Daniel Cornélio de Cerqueira que propõe o nome Belo Horizonte. A idéia de mudança da Capital de Ouro Preto para Belo Horizonte tinha como opositores o povo ouropretano, que durou até a inauguração da nova Capital em 12 de dezembro de 1897. O projeto urbanístico da nova capital, pautado pela ideologia positivista republicana, concebia a utopia de uma cidade ideal, ordenada, iluminada e saneada, como marco de uma nova era, contrapondo-se à antiga ordem imperial enraizada nas tradições políticas e culturais de Ouro Preto. Mais um lugar surgido do imaginário de um povo.

Fui criado no bairro onde, por uma de suas principais vias, a rua Platina, passaram as primeiras carroças que transportaram material para construção da cidade. O bairro foi originalmente pensado como um local apropriado para corridas de cavalo, o Prado Mineiro, primeiro hipódromo de Belo Horizonte, inaugurado em 1909. A sociedade se encontrava aqui para assistir às corridas de cavalo. Com o tempo, o antigo hipódromo daria lugar a um campo de futebol, onde eram disputados jogos do campeonato mineiro. Também ficou conhecido por ter sediado o primeiro vôo oficial de avião da cidade realizado pelo piloto italiano Dariolli. O avião, àquela época, era totalmente desconhecido da população, tendo sido visto antes apenas no cinema. Vivi muito entre as ruas do bairro de nomes de pedras preciosas: Ametista, Rubi, Esmeralda, Turquesa…

Atualmente vivo em um bairro cujo nome deriva do Colégio Batista Mineiro, uma instituição de ensino inaugurada em 1º de março de 1918, na Rua Tupinambás, centro da capital, que a partir de 1920, se transferiria para a região leste, que era tomada pelo mato. Na medida em que o colégio foi vendendo parte de sua área, novas ruas foram surgindo. Sei que o meu terreno fez parte de uma das fazendas que existiam no local. Aqui perto há um lugar que hoje abriga muitas pessoas e que antes era um curral para os cavalos dos tropeiros que guardavam aí, a sua tropa. Meu lar está no limite entre este bairro e outra região que,
na década de 1920, passou a abrigar os trabalhadores desempregados, em função da crise econômica que assolou a cidade na época. O bairro já tinha uma fama de abrigar trabalhadores da construção civil, de ofícios ligados à construção de instrumentos musicais e alfaiates. A boemia já era conhecida e, associada à prostituição, foram as causas do estigma lançado ao bairro. Moro, literalmente, entre o sagrado e o profano, entre os “crentes”e os putos. Porém continuo vinculado às Minas. Minha rua significa, em tupi, pedra que brilha.

Minha família, por parte de pai, com registros confirmados, é fruto de uniões entre um senhor de Bichinhos (nascido em 1785), distrito de Tiradentes, cuja filha se casou com um senhor de Braga, bispado de Portugal. Desta relação, nasceu um cirurgião dentista, que casado, teve uma “segunda” esposa, de cujos filhos eu descendo. Portanto, parte de minha ascendência é bastarda. Sei também que outro ascendente veio de Portugal para o Brasil junto com irmãos para tentarem a sorte no país. Escolheram, ou foram escolhidos, pela ferrovia Oeste de MG. Um destes irmãos ( do qual eu descendo ) veio a se casar com uma ex-escrava alforriada. Já por parte de mãe, minha família vem de Caeté. Meu avô, foi um médico que, pela ironia do destino, veio  a falecer em um sanatório para tuberculosos, com a idade de 46 anos e deixando nada mais , nada menos do que 10 filhos para serem criados pela minha avó.

Quando nasci, a presidente do meu país se encontrava em cárcere, e talvez estivesse sendo torturada por ter participado, aos 23 anos, como a “papisa da subversão” do Comando de Libertação Nacional (Colina) e da VAR-Palmares. Era uma militante política condenada por crimes contra a segurança nacional. Era, de fato, uma opositora da ditadura militar. Nasci no governo de Emílio Garrastazu Médici e no meio do chamado milagre brasileiro. A moeda era o cruzeiro novo. O papa era o Paulo VI. O presidente dos EUA era Richard Nixon, que viria a renunciar anos depois por causa do caso Watergate e, quando nasci, ele negociava a retirada das tropas do Vietnã. Eram os tempos da calça boca de sino, calças jeans desbotadas, vestidos de crochê. Os Beatles viviam seus últimos dias como grupo. Os Mutantes lançavam o disco A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Caetano e Gil estavam exilados na Inglaterra. Chico Buarque voltava de seu auto-exílio na Itália. O carro mais cobiçado era o Dodge Dart. A televisão era em preto e branco. Na TV Excelsior havia a novela Sangue do meu Sangue” de Vicente Sesso, com Fernanda Montenegro e Tônia Carreiro. Leila Diniz realizava um movimento em frente à Rede Tupi por falta de pagamento de cachês dos artistas. A Globo, que completaria 5 anos de atividades em abril, exibia as novelas Pigmalião 70 e Véu de Noiva, esta depois seria substituída por Irmãos Coragem. Na rádio, era o tempo de Simon & Garfunkel com Bridge over trouble water, considerada a música do ano.  Era o tempo também de Beth Carvalho com Andança, do Coral Joab e o seu Pra frente Brasil, hino do título da Copa que seria nosso naquele ano. Evinha com Teletema, Jackson 5 com I'll Be There, Os Incríveis e seu ufanista Eu te amo meu Brasil, Roberto Carlos com Jesus Cristo, The Beatles e seus Let It Be. Jimmy Hendrix e Janis Joplin moreriam em alguns meses. No cinema, estreava o filme Aeroporto, inaugurando o gênero filme-catástrofe. Ainda teria Love Story, um clássico. O teatro seguia com seus textos e espetáculos sendo censurados.
Nasci numa quinta-feira. Sou São Zé. Sou pisciano, signo de água, regido por Netuno. Ascendente em câncer (dizem que é como eu vejo a vida), lua em leão (já soube exatamente o que isso queria dizer). Sou cachorro no horóscopo chinês. Filho de Oxum (uma orixá que reina sobre a água doce dos rios, o amor, a intimidade, a beleza, a riqueza e a diplomacia. Também é um orixá do candomblé. Seus filhos são doces, sentimentais, agem mais com o coração do que com a razão, será?) e de Oxóssi (o orixá da caça e da fartura, da expansão dos limites, do seu campo de ação. A caça é uma metáfora para o conhecimento, a expansão maior da vida. Ao atingir o conhecimento, Oxóssi acerta o seu alvo. Por este motivo, é um dos Orixás ligados ao campo do ensino, da cultura, da arte).
Sou um curioso de plantão. Veterinário aposentado, professor por profissão, fotógrafo como hobby, dançarino por diversão e um corredor em formação.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Eu.

"Porque me confundes com silêncio
Eu te desconcerto com entendimento
Porque me surpreendes com os teus retratos
Visto-me de tua imagem
Porque me enfureces e me iluminas
Mas como ninguém eu te conheço
- e tu como só tu me advinhas"

(Regina Brasília, blog Veneno Veludo)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudades do meu tempo.

Ai que falta me faz o tempo de não fazer nada. Inventar coisas para fazer.
Elas vinham de dentro, de lugares que nem sabia que existiam. Apareciam.
E eu olhava e aceitava o convite para levar minha cabeça para passear.
Minha "cuca"era a minha televisão, internet, celular.
Ai que falta me faz o tempo de sentir.
Os odores que conhecia e ficavam registrados. Eles, às vezes, aparecem quando cheiro algo similar.
Assistia a filmes e conhecia emoções pela primeira vez.
As músicas eram apresentadas a mim sem cerimônia. Me arrebatavam. Era um tempo em que as decorava.
Tempo, volta! Vem me fazer companhia. Traz o sossego de volta. Me conforta. Me deixa te sentir de novo. Me faça lembrar de você.
Me leve a pensar que você existe e que um dia eu possa te perder.

MInha voz, meu corpo.

Um versão desse texto foi publicada há algum tempo na Revista Vida Simples

Nossa experiência cultural é tão marcada pela escrita e pelo visual que esquecemos muitas vezes que somos seres sonoros e, sobretudo, que somos orais. Ouvimos e somos ouvidos fazendo parte de uma paisagem sonora. Mais além, falamos e esse é o fato político fundamental.

Do esquecimento da voz resulta a incapacidade política de uns e a violência discursiva de outros. Voz é justamente o universo político construído pela partilha da coisa falada. Não é a voz que está em nós, somos nós que estamos nela. E é por meio dela que, em primeiro lugar, fundamos a democracia.

A partilha da voz não é abstrata. É a partilha de um corpo que a todos pertence e, por isso mesmo não pertence a ninguém. Da voz, o que é dito, se torna domínio público. O que eu digo se estende para além de mim, é meu corpo tornado corpo do mundo. A voz do povo é a voz de Deus, equivale a dizer que o dizer profano se torna sagrado, está para além de nosso domínio pessoal, não tem mais dono. Qualquer um terá direito a seu uso. Por isso, em nossa cultura impera a parcimônia em dizer “verdades”, impera o silêncio quando se exigiriam posicionamentos.

Devido à desatenção que caracteriza nosso modo de ser banalizamos o fato importantíssimo da vida que é a nossa capacidade de falar uns aos outros, uns com os outros. Esquecemos por incrível que pareça que para falar precisamos da voz. Deixamos de lado sua materialidade para lembrar dela apenas quando a voz de uma cantora ou cantor nos cativa ou quando alguém nos fala em tom desagradável. Sentimos que a voz é veículo da linguagem e que está sempre carregada de significado como um corpo que, prostrado ou ativo está triste ou alegre.

A voz é corpo. Mas quem percebe isso? Quando falamos ou ouvimos a voz de alguém é como se o tocássemos ou fossemos tocados por ele. A voz é corpo e, por isso, mais que audível, ela é tátil. Por isso, a sensação de bom ou mau afeto, de amor ou violência que vem do conteúdo e da forma com que nos comunicamos uns com os outros. Isso é o que significa performance: um movimento, um tempo, que implica um efeito.

Seres falantes

A voz é uma dimensão da vida corporal, da vida sensível, da vida dos sons, não deve, portanto, ser vista como uma abstração imaterial e desconexa dos atos e gestos mais simples de nosso cotidiano. Mas pensar que ela é material e imaterial, parece ser o modo mais coerente de captar o seu conceito. Voz é corpo-espírito, é natureza-cultura.

Aristóteles (384-322 a.C) disse que a voz mostrava o que estava escrito na alma, assim como a escrita era signo da voz. A voz mesma não era signo de coisa alguma, antes um lugar que se representava a si mesmo. O fato por onde começava a comunicação, a mera indicação e a significação das coisas. Mas a voz era um meio, não um fim. Como tal, ela significa o trânsito por meio do qual se chega ao outro. Uma espécie de ponte que se constrói ao andar sobre ela.

A dimensão de falante é constitutiva do ser humano. A capacidade de conhecer que fundará mais tarde a ciência, a capacidade de relacionar-se que funda a ética e a política, são efeitos e potências da voz como articulador de toda a existência humana. A voz está na raiz da relação entre corpos individuais e instituições, desejos e leis, saberes pessoais e coletivos. A voz é a nossa articulação com o mundo.

Quintiliano, pensador antigo famoso por sua obra sobre retórica, via a voz era expressão dos afetos, como parte da ação. Nada passiva, a voz era parte da capacidade de agir de cada um, mas também a potencialidade de agir sobre um outro, de causar afetos. Voz era aquilo que constitui seu caráter performativo, ou seja, que provoca no outro uma reação, seja ela de mudança, seja de permanência. Se lembrarmos da poesia, isto se torna ainda mais claro já que ela foi a primeira forma da consciência da voz humana e que surgiu da potencialidade do afeto e da emoção que se traduziam no corpo da voz.

A poesia tem uma essência oral antes de ser coisa escrita, ela foi criada para ser ouvida. A escrita veio bem depois. Os antigos achavam que a voz tinha plena relação com a poesia não apenas porque a poesia precisava da voz para se expressar, mas porque ambas eram misteriosas. Santo Agostinho, na Idade Média, não deixou de expressar isso quando pensou que a voz era a própria vontade de saber. E para ele esta vontade de saber se traduzia como amor. A voz de uma palavra desconhecida não causava pavor ou rejeição, mas remetia ao que se podia conhecer. A voz era parte da filosofia, estava no cerne do modo como alguém pode conhecer.

Noutra linha, Hegel (1770-1871) assim como Heidegger (1889-1976) relacionou a capacidade de falar própria ao ser humano com sua consciência sobre a morte. Morte que não era apenas o cessar de viver dos corpos vivos, mas um saber sobre o tempo e a finitude da vida que mudava a relação com a vida enquanto podia ser vivida. A condição humana diferente dos outros animais vivos era a sua separação da natureza por meio da linguagem. Sendo que a voz e a morte eram fatos da linguagem. A primeira levava à linguagem e a linguagem levava a um saber sobre a morte. Tratava-se de instâncias misteriosas para o ser humano, que estavam ligadas entre si por meio da linguagem.

Violência e Voz

Podemos cantar, chorar, falar, dialogar, discursar, gritar ou nada mais que tagarelar. Mesmo quando falamos sem sentido, alguém pode, ainda que não queira, nos ouvir. Até o louco diz o que pensa, embora nem todos possam entender ou tenham paciência para escutar a voz sem política do louco. Ela parece sem política porque parece sem sentido. Acontece que, mesmo com garantias de sanidade, qualquer um que não tenha nada a dizer acaba sempre se expressando por meio de sua voz. E isto pode ser grave. Por isso, é bom pensar antes de falar porque a voz vai além de nós e depois que foi, não tem volta. Não é fácil apagar o que se diz se o ouvinte está atento, ou seja, se ele foi tocado. Assim como não é possível rebobinar a vida e voltar atrás no gesto de agressão que se emite por meio de palavras. A voz implica um corpo e o corpo implica ação. Daí que falar seja fazer e o feito possa ser tanto poder quanto violência.

Prestar atenção no que se diz é tão importante quando no que se ouve. Nossa sociedade tão tagarela quanto auditivamente desatenta nos ajuda a esquecer que somos seres falantes. Ou seja, que produzimos efeitos sobre o outro pelo simples fato de falarmos. Talvez a memória de que nosso amor e nosso ódio trafegam com as palavras que lançamos ao vento por aí possa melhorar o rumo de nossas vidas.

Márcia Tiburi.

domingo, 3 de abril de 2011

Arte.

Como disse Andy Warhol: "um artista é alguém que produz coisas de que as pessoas não têm necessidade, mas que ele - por qualquer razão - pensa que seria uma boa ideia dá-las a elas."

terça-feira, 22 de março de 2011

Sobre como da morte brota a vida

"E O CADÁVER que você plantou no seu jardim, já começou a brotar? Pode ser que cada sepultura seja um jardim!"
Sou antropófago. Devoro livros. Quem me ensinou foi Murilo Mendes: livros são feitos com a carne e o sangue dos que os escreveram. Os hábitos de antropófago determinam a maneira como escolho livros.
Só leio livros escritos com sangue. Depois que os devoro deixam de pertencer ao autor. São meus porque circulam na minha carne e no meu sangue.
É o caso do conto "O afogado mais bonito do mundo", de Gabriel Garcia Marques. Ele escreveu. Eu li e devorei. Agora é meu. Eu o reconto.
É sobre uma vila de pescadores perdida em um nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho, as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...
Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou. Todos correram. Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa. E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia, para o desapontamento de todos: era um homem morto.
Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar. E naquela vila o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento. Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora. E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.
Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".
Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça.
De novo o silêncio profundo, até que outra voz foi ouvida. Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas? Será que ele conhecia aquela palavra secreta que, quando pronunciada, faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?"
E elas sorriram e olharam umas para as outras.
De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher... "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas? Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"
Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele, os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.
Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais. E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito, nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam desejado.
A estória termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma...
Depois dos terremotos e tsunamis nosso mundo nunca mais será o mesmo...
Rubem Alves - Folha de SP de hoje.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Grandes e pequenos desejos.

OS ADOLESCENTES de hoje me parecem desejar de maneira tímida. Como já escrevi, surpreende-me que eles desejem pequeno.
De fato, poderia estender essa constatação aos adultos de hoje. Não que eles deixem de desejar (isso só acontece em raras depressões graves), mas há, aparentemente, uma preferência contemporânea generalizada pelos desejos pequenos. Cuidado: um desejo não é pequeno porque seu objeto seria pouco relevante.
Tomemos, por exemplo, "Maria está a fim de cerejas" e "Antônia quer o fim de todas as guerras". Será que o desejo de Antônia é grande e o de Maria pequeno? Nada disso.
Melhor nunca comparar desejos por sua suposta "nobreza" -até porque essa tal "nobreza" pode esconder motivações bem mais torpes do que uma saudável vontade de cerejas. Então, como diferenciar desejos grandes e pequenos?
Pois bem, há desejos fluidos, suscetíveis de infinitos deslizamentos, como se, de alguma forma, o objeto desejado fosse indiferente. Esses são desejos pequenos.
Por exemplo, estou a fim de uma calça nova. Entro na loja e o tamanho 39 está em falta. Olho ao redor de mim e acabo comprando duas camisas que não têm nada a ver com a calça que eu desejava.
Quero rever "Cisne Negro", mas a sessão está lotada; nenhum drama, compro ingresso para "Bruna Surfistinha" (incidentemente: me dei bem, amei o filme). Também posso querer o fim de todas as guerras e, ao ver na TV uma ação do Greenpeace, decidir que de agora em diante só me importa o destino das baleias. Nesse caso, por se revelar facilmente substituível, o fim de todas as guerras é um desejo pequeno.
Há um outro tipo de desejo, mais incômodo, que não admite a substituição. Quero circum-navegar a Terra de veleiro, quero vingar meu pai, quero produzir uma obra, construir um império, rezar em silêncio no deserto, comer cerejas a cada dia: se eles forem insubstituíveis, se sua insistência moldar nossa vida, esses desejos são grandes porque eles nos definem.
O desejo pequeno é ideal para uma sociedade que conta com o consumo para alimentar a produção e organizar as diferenças sociais. Desejos substituíveis garantem que a gente seja sempre levemente insatisfeito e levemente desejante, esvoaçando de objeto em objeto como uma abelha num campo de flores.
Quanto ao desejo grande, que já foi ideal dominante, ele é hoje raro na prática, mas (anúncio de uma mudança dos tempos?) a sedução que ele exerce está crescendo.
Como Mônica Waldvogel (no "Entre Aspas", da Globo News, na última quinta) e o crítico da Folha Inácio Araújo (na Ilustrada de domingo), reparei que a safra do Oscar deste ano é peculiar: quase todos os filmes indicados ilustram desejos grandes.
Estamos tão acostumados a desejar pequeno que desejar grande (e pagar o preço disso) nos parece ser um comportamento patológico (o cara enlouqueceu, está obcecado) ou, então, sinal de crise (os EUA devem estar muito mal se eles precisam idealizar esses heróis que desejam grande).
Penso o contrário: patológico é desejar pequeno. E, se os Estados Unidos estão gostando de heróis que sonham grande, talvez eles estejam saindo da futilidade dos anos 90: o sinal não seria de crise, mas de saída da crise.
Recentemente, vários leitores e leitoras me perguntaram por que não escrevi sobre "Cisne Negro", que (alguns notaram) é um prato cheio para um psicanalista. Pois é, amei o filme e concordo com a ideia do prato cheio, mas acontece que, no filme, o que me comoveu não foi tanto o desabrochar da loucura quanto o heroísmo do desejo de perfeição da protagonista -um desejo grande.
Falando em desejo grande, "Bruna Surfistinha", que estreou na última sexta, é outro exemplo. O filme de Marcus Baldini não é uma apologia nem uma crítica moralista da prostituição: é um filme sobre o difícil e tortuoso caminho de alguém que quis ser livre. É a história de um desejo grande.

Contardo Caligaris - Folha de São Paulo 3 de março 2011.